Trader revela suspeitas de apostas viciadas

Pedro Silva decidiu denunciar aquilo que viu

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O Match Fixing está cada vez mais na ordem do dia. E o tema surge com força cada vez que é noticiada alguma suspeita de irregularidade. O tema saltou para opinião pública depois de ter sido noticiado a operação Jogo Duplo que levou à detenção de várias pessoas, voltou a ser falado quando o Placard decidiu encerrar as apostas do jogo Rio Ave vs Feirense, e no jogo Estoril vs FC Porto. Como se lembrarão, os dragões estavam a perder por uma bola a zero a intervalo, o jogo teve de ser interrompido e adiado devido a problemas com a bancada do Estádio Coimbra da Mota. Entre o dia em que o jogo foi cancelado, e o dia em que foi retomado, o Ministério Público entrou em ação para investigar uma transferência de € 784 mil das contas do FC Porto para o Estoril.

Entretanto, a revista Sábado entrevistou um trader que confirma as suspeitas das negociatas debaixo da mesa nos campeonatos de futebol portugueses. Muito mais do que acontece em Inglaterra.  Pelo meio também se fica a conhecer a difícil vida vida de um apostador profissional que vive longe da famíala.

É habitual dizerem a Pedro Silva que ele é um sortudo. Afinal, desde que se tornou apostador profissional, em 2010, só houve um mês em que não ganhou dinheiro a tentar acertar em resultados, golos ou penáltis dos jogos de futebol. Mas ele garante que as apostas não têm nada de fortuito. “Estava tramado se dependesse da sorte ou do azar. Um jogo de futebol é uma coisa matemática, de análise estatística e de probabilidades”.

Pedro Silva é um apostador profissional a viver em Inglaterra… longe da família. Foto: Ricardo Pereira/Sábado

Pedro Silva mudou-se em 2013 para Inglaterra (viaja a Portugal regularmente, para ver a mulher e os dois filhos), porque é lá que estão as grandes casas de apostas mundiais, como a Betfair, com 4 milhões de clientes registados. Faz milhares de apostas todos os dias, na sala onde tem nove ecrãs, sintonizados em jogos de vários campeonatos, do português e inglês ao egípcio e paraguaio. “Acompanho os jogos e as odds e vejo que dinheiro é investido”, conta.

Foi por isso que a 6 de Fevereiro de 2017 percebeu logo que havia algo estranho no Feirense vs Rio Ave da 20ª jornada da I Liga, devido ao dinheiro envolvido (o Placard e a Santa Casa suspenderam as apostas, pois houve apostadores chineses a tentarem investir € 50 mil e € 100 mil ).

Consegue perceber quando os jogos estão a ser manipulados?

Sim, isso acontece quando aparecem pessoas a oferecer prémios completamente díspares da probabilidade de aquela equipa ganhar.

E isso acontece com frequência?

É o pão nosso de cada dia por exemplo na Grécia, Roménia ou Bulgária. Vejamos: uma equipa tem 50% de probabilidades de ganhar e marca um golo. Está a vencer, mas o mercado diz que a probabilidade de ganhar passa a ser menor do que quando estava empatada. Aí não há dúvida de que esse jogo está comprado.

E em Portugal, quando é que começou a notar isso?

Na I Divisão, na época passada. Na II houve casos antes. Aliás, foram sinalizados pela FederBet, o organismo que faz a monitorização dos jogos nos vários mercados e alerta para movimentos suspeitos. Na II Liga, como há menos dinheiro envolvido, uma coisa dessas é mais evidente, porque se aparece lá alguém a pôr 10 mil euros, isso é logo suspeito.

Quanto é que se pode ganhar com uma aposta num jogo manipulado?

As apostas num jogo manipulado podem valer milhões de euros.

As entidades fiscalizadoras não detectam essas movimentações?

Detetam.

E em caso de suspeita, as apostas nesses jogos não são suspensas a nível internacional?

Não, porque as leis variam de país para país. Quem vai fechar uma casa de apostas em Singapura ou na Costa Rica por suspeitas de apostas num jogo da I Liga portuguesa?

Há sempre maneira de ganhar dinheiro com esses jogos viciados?

Claro. Cá só temos três casas regulamentadas [Placard, Betclic e Bet.pt], não temos acesso a todas as outras.

A forma de isto ser perfeitamente transparente é fazer como se faz em Inglaterra e termos as casas todas regulamentadas e a funcionar cá, para que uma pessoa não tenha de ir a Inglaterra para perceber o que se está a passar com um jogo adulterado em Portugal.

Em relação ao Feirense vs Rio Ave, que indícios notou de que pode realmente ter havido corrupção?

A quantidade de dinheiro absolutamente anormal que entrou a favor da vitória do Feirense, em probabilidades completamente estúpidas.

Tem ideia do dinheiro envolvido?

As apostas no jogo movimentaram 2 ou 3 milhões. E só na Betfair. Não estamos a falar das casas asiáticas.

Que pormenores do jogo é que achou estranhos?

O que chama mesmo mais a atenção é a quantidade de dinheiro envolvido a favor do Feirense, numa probabilidade irreal. Em relação ao jogo, o primeiro golo do Feirense é perfeitamente normal, mas o segundo já não parece tanto, os defesas parecem desistir do lance.

É uma coisa que pode acontecer, mas com a quantidade de dinheiro a circular no mercado isso é estranho.

Houve outros casos de jogos suspeitos, na I Liga portuguesa?

Sim, na época passada há o Paços de Ferreira vs Feirense. E porquê? Porque a probabilidade de o Feirense ganhar no campo do Paços nunca pode ser superior a 50%, e neste caso foi.

Ao intervalo, com 0-0, e depois de uma primeira parte em que o Paços atacou muito mais, embora nas vrias oportunidades parecesse que os avançados estavam a passar a bola ao guarda-redes do Feirense, a odd era de 2, ou seja o Feirense continuava a ter 50% de hipóteses de ganhar.


Mas isso não podem ser apenas erros dos jogadores?

Claro, o que não é normal é que haja alguém a pôr centenas de milhares de euros a favor de algo que é completamente estúpido.

“Havia alguém nos mercados a acreditar que o Feirense ia ganhar, e eram várias pessoas. E estavam dispostos a pôr dinheiro em probabilidades completamente estúpidas de que isso ia acontecer, e só descansaram quando o Feirense marcou o golo”.

Diz que houve comportamentos suspeitos, como avançados isolados a falhar. Isso são indícios suficientes de que os jogadores do Paços de Ferreira receberam dinheiro para perder o jogo?

Não sei, mas havia alguém nos mercados a acreditar que o Feirense ia ganhar, e eram várias pessoas. E estavam dispostos a pôr dinheiro em probabilidades completamente es-túpidas de que isso ia acontecer, e só descansaram quando o Feirense marcou o golo, até lá insistiam que eles iam ganhar. Esses falhanços podiam acontecer naturalmente? Claro. Agora, não é comum isso acontecer com o dinheiro que estava a entrar.

Parece que vê os jogos de uma maneira como se um falhanço não pudesse acontecer. Mas o futebol não é feito de muitos falhanços?

No futebol, a maior parte das pessoas não tem essa percepção, mas porque é que não se fala de probabilidades reais de vitória ou derrota? Abstraímo-nos da parte matemática, mas o futebol tem muito a ver com probabilidades, a arte de ganhar dinheiro nos mercados de apostas passa por identificar esses padrões e ver quando é que eles se repetem.

Com a quantidade de jogos que já acompanhei na minha vida, e que foram mais de 100 mil, é possível perceber quando há situações padronizadas e quando alguma coisa está por trás.

Há suspeitas de jogos em que os jogadores do Feirense poderiam ser pagos para perder?

Nos jogos que detectei movimentos estranhos era sempre para o Feirense ganhar. Só vejo o que acontece nos mercados, e o que acontecia é que aparecia demasiado dinheiro a favor das vitórias do Feirense, em probabilidades irreais.

Era impossível não haver um conhecimento especial relativamente àquele jogo, havia de certeza alguém que sabia mais.

Nunca lhe apareceu um jogo suspeito envolvendo Benfica, FC Porto ou Sporting?

Não. Com situações assim tão claras, não. Agora, o que se começa a identificar são padrões relativamente ao comportamento do vídeo-árbitro (VAR).

Quando o VAR vai definir se é golo ou fora-de-jogo, há imenso dinheiro a entrar. E as pessoas apostam a favor do clube grande, porque já se percebeu que o VAR foi criado para beneficiar os clubes grandes.

E em relação ao Rio Ave-Benfica da época 2015/16, agora investigado pelas autoridades?

Vi a notícia, mas não houve nada de anormal nesse jogo ao nível do mercado das apostas. A ter acontecido alguma coisa, nada teve a ver com apostas.

Em Março de 2017, na II Divisão B espanhola, quatro jogadores, um treinador e um dirigente do Eldense foram detidos por suspeitas de viciarem um resultado com o Barcelona B.

O acordado era estarem a perder 8-0 ao intervalo e por mais de 11-0 no final, o que aconteceu. Tem conhecimento de outras combinações assim estranhas?

Sim. Estes casos que aconteceram na II Liga portuguesa, alguns tinham a ver com a quantidade de golos que eram marcados, passava por haver uma diferença de 5 golos, como aconteceu no Oriental-Oliveirense. E como são coisas pouco prováveis de acontecer, conseguem-se correspondências em odds muito altas.

No caso dos jogadores da II Divisão, terão aceitado valores entre € 3.500 e € 7.500  para perder. Isto não são quantias pequenas?

Sim, é muito pouco. E se aceitam isso é porque devem ter a percepção de que há poucas hipóteses de serem apanhados, porque ninguém se deixaria corromper por esse valor.

Além do Feirense-Rio Ave e Paços de Ferreira-Feirense, há outros jogos suspeitos na I Liga?

Há outros jogos do Feirense, mas não tão evidentes. Depois há aquelas situações que não são muito normais, como o penálti do Tonel no Sporting-Belenenses, em que fez um penálti estúpido.

Especulou-se sobre isso, pois ele tinha jogado no Sporting, mas terá sido um lance fortuito, porque não aconteceu nada nos mercados ao nível de entrada de dinheiro.

O que acha de termos uma equipa em Portugal, o Feirense, cujo presidente da SAD é dono de uma casa de apostas na Nigéria?

É um factor de risco, é o primeiro passo para estas situações continuarem a acontecer. Devíamos era ter casas de apostas a patrocinar as camisolas dos clubes, a porem publicidade estática no estádios.

Em Inglaterra não há compra de resultados?

Não. Tanto na I como na II Liga, isso é impossível. Há tanta gente e tanto dinheiro lá que é impossível manipular aqueles mercados. Qual é a melhor forma de combatermos este fenómeno? É todos nós sermos um bocadinho polícias disto.

Se tivermos todos os espectadores dos jogos da I Liga portuguesa inteirados do dinheiro que está a ser transacciona-do num jogo, é impossível alguém manipular e não ser descoberto.

Porque é que foi viver para Inglaterra?

Em Portugal, as maiores bolsas de apostas não estão regulamentadas. Se o fizer é uma contra-ordenação que acarreta uma multa de 2.500 euros.

Qual foi a maior aposta que fez? € 5 mil, € 10 mil ?

Não faço apostas de risco tão grande. Mas já apostei para ganhar 10 mil euros. No melhor mês que tive houve um jogo em que ganhei € 14 mil, mas o meu risco normalmente não ultrapassa € 1000.

Em oito anos, tive uma aposta falhada de € 2900 , num jogo no Japão (o tipo marcou, começou a festejar, entretanto a imagem da televisão falhou, eu tinha metido dinheiro a favor do golo e não vi que afinal tinha sido anulado – nunca mais entrei em jogos do Japão). E tive outro caso, um Vit. Guimarães-Arouca.

O Guimarães marcou um golo e eu estupidamente meti o dinheiro todo a favor do Arouca, baralhei-me com as camisolas e perdi 3 mil euros. Foi a única vez que cheguei ao fim do mês com prejuízo: 300 euros. No caso do Japão ainda consegui recuperar.

Aposta em vários jogos ao mesmo tempo?

Sim, por isso é preciso estar com muita atenção. É um desgaste mental muito grande, estou ali fechado 10 horas, ou um fim-de-semana inteiro, e chega ao fim e perco 100 euros. Resistir a isso é o grande desafio. Porque as pessoas pensam: que azar, estive quase a ganhar, mas a bola foi ao poste.

Isto não é uma questão de azar. Por exemplo, qual é a probabilidade de um jogador marcar golo num penálti? Eu fiz uma análise e posso dizer que um jogador destro tem a possibilidade de falhar um em cada cinco penáltis e um esquerdino um em cada quatro.

E porquê? Porque os destros têm tendência a chutar para o lado esquerdo do guarda-redes e os canhotos para o seu lado direito. E como a maior parte dos guarda-redes são destros, atiram- -se mais para o seu lado direito, têm mais facilidade em defender desse lado, têm mais força nesse braço, conseguem esticar-se mais e chegam mais vezes à bola. Isto não é sorte ou azar, é matemática.

Nota: Entrevista publicada a 4 de Janeiro de 2018 na revista Sábado.

 
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Sou apostador desde 2013, e sou um apaixonado por esta área. Vivo em Lisboa, sou adepto do Benfica (mas não doente), e criei projecto CaXemira Bet em 2015 para partilhar prognósticos (com principal incidência sobre o Futebol) e algum conhecimento sobre o mundo das apostas desportivas. Tento explicar aos iniciados, com uma linguagem acessível, e através de experiências próprias, algumas dicas e técnicas de sucesso.

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